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segunda-feira, 15 de março de 2010

. Vontades.. #parte 01


Éramos eu, música, cama e saudade.

Vontade de construir uma ponte, curta e estreita, para poder chegar aí junto com a luz.
Vontade dos almoços no fim da tarde, do riso frouxo e alto.. Do nosso riso!
Vontade da sua voz.. Voz de madrugada, voz de “quero você aqui”.
Vontade de virar pena para chegar até você leve, bem leve.. Te dar paz. Ficar em paz.
Vontade de mãos e abraços..
Vontade de queixo no ombro e carícias nos cabelos.
Vontade de ter jeito para isso..

Passam esses dias de vontades..
Passo eu aqui, metade, até você voltar.

Somos eu, letras, cama e saudade.
Muita saudade.
Enorme saudade.

["Virava pra lá e pra cá na cama.
Estava impaciente..
Até me sentei no escuro.
 Pensei: 'Não era uma posição o que eu procurava.
Era você'." ]


*

sexta-feira, 12 de março de 2010


(...) Olha, fique em silêncio.
Eu gosto do teu silêncio.
Mas também gosto (mais ainda) de tuas palavras - acredite.
Mas não vim aqui para te falar de ruídos - ou não.
Estou aqui para te falar de céu, mar, estrelas e tapioca.. Como naquele dia, lembra?
Ontem, por incrível que pareça, todos os lugares que pisei eu te procurei.. Teus rastros ficaram por lá.
O balançar de teus cabelos e esse teu jeito meio atacado de ser.
Fiquei feliz em poder sentir tua falta - a falta mostra o quão necessitamos de algo/alguém.
É assim o nosso ciclo.
Eu te preciso.
Perto, longe, tanto faz.
Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho - com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia - e pense em mim.  Estou com calor também.
Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras que supostamente você está fazendo.
Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte.. 
E te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós.
É, eu gosto muito de ti.
Tomei um táxi e me distraí tanto olhando pela janela que no meio do caminho estendi a mão pro banco vazio do lado querendo pegar na tua mão..

. Caio Fernando Abreu .

[Toda a minha saudade e o meu amor de sempre..]

*

terça-feira, 2 de março de 2010

. Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim ..

"Tá limpo.
Sem ironia. 
Sem engano. 
Amanhã, depois, acontece de novo..
Não fecho nada, não fechamos nada..
Continuamos vivos e atrás da felicidade.
A próxima vez vai ser ainda, quem sabe, mais celestial que desta!
Mais infernal também, pode ser, deixa pintar..
Se tiver aprendido lições (amor é pedagógico?), até aproveito e não faço tanta besteira.
Mas acho que amor não é cursinho pré-vestibular.
Ninguém encontra seu nome no listão dos aprovados. 
A gente só fica assim, parado, olhando a medida do Bonfim no pulso esquerdo, lado do coração, e pensando: Pois é, vejam só... não me valeu."
(Caio Fernando Abreu)


[Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado
(...)
Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde..]

*

domingo, 28 de fevereiro de 2010

.. A Casa .


E se essas mãos fossem de mentira
A estrutura dessa casa resistiria por quanto tempo?

Quando a base é frágil
Cada dia se torna um novo desafio.

Manter a casa de pé
E a mobília organizada
Desgasta quando o alicerce é pobre, fraco.
Nada é estável.
Tudo balança..
Rachaduras à mostra.

E a esperança não se renova.
Ela acaba aos pouquinhos
Levando junto essa contrução mentirosa..

É uma pena,
Pois essa casa poderia ser muito bonita
Se as mãos fossem de verdade..

Mas eu não posso fazer tudo sozinha..
Isso é o que me dói mais.

E quando eu montar casa nova,
Se você não estiver dentro,
Não se assuste,
Mas tenha certeza 
Que estarei muito bem 
E muito mal.

Bem por estar longe de você.
Mal por estar longe de você.


[Ultimamente ando sem paciência
para concretos, cal e escavadeiras.
Me calo deixando o tempo passar.
Um dia a casa desaba..

Eu só queria sair ilesa, cara..
Só isso.

E me calo..]

*

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

. Um dia, uma noite e mais um dia..


Tristeza. Incerteza. Mudez. 


Vontade de voltar. Mensagem enviada. 
Mala pronta. Planos encaixotados.
Calor. Choro. Arrependimento. 


Conversa. Choro. Raiva.
Vinho. Calor.
Desculpas. Beijo. Paz.
Sexo. Amor. Calor. Banho.
Mala desfeita. 
Vontade de ficar.


[E resconstituo os pedaços
A gente enfeita o cotidiano
Tudo se ajeita.]

*

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

.:. E quem não é? E quem te garante? .:.



Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. 
Sabe que tudo acontece como um jogo, se é de azar ou de sorte, não dá pra prever. Ou melhor, até se pode prever, mas ela dispensa.
Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. Estranho é que ela já apanhou demais da vida.
Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é?
A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas?
A moça... ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar.
As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera?
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. 
E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda... 
Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

Sempre Caio.. 
Sabendo me mostrar
Tudo que preciso ver  
E no momento exato..

*

[Estranha sensação lhe viera naquele dia..
A de achar que se moresse naquele instante, 
não ficaria com dó de deixar nada nem ninguém..

E ela só queria ir pra casa.]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

. Repito e repito..

"Tenho repetido que, no que depender de mim, me recuso a ser infeliz".

Caio Fernando Abreu


[E pela minha lei
a gente era obrigado a ser feliz!]

*

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

.:. Além das palavras .:.


Nesses momentos, abraçados, falavam de si, revelando-se mutuamente, se experimentavam, maravilhados, descobriam pontos de contato, afinidades insuspeitadas. Recompunham o mundo à sua maneira, tentavam um entendimento completo além das palavras.


Fernando Sabino in “0 Encontro Marcado”


[Mas no momento, só palavras
escritas e faladas..
Mas que não deixam de vir
carregadas de abraços e toques.]

*

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

"Vê se não vai demorar.."


Um tanto tristinha sim..

Uma vontade de estar sempre junto
de abraçar
de sentir a pele em brasa
do arrepio do toque
do descompasso do coração..

É que essa coisa que chamam de saudade
já tinha chegado antes de você ir embora..


[Partiu com um sorriso sem graça no rosto
e uma mochila nas costas..

E eu continuo odiando aquela mala..]

.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

:: Vai Passar ::

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada “impulso vital”. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como “estou contente outra vez”. Ou simplesmente “continuo”, porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como “sempre” ou “nunca”. Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como “não resistirei” por outras mais mansas, como “sei que vai passar”. Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de “uma ausência”. E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- … mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca …

Caio Fernando Abreu 


[Porque eu soube continuar..

E apesar de algumas memórias latejarem loucas 
em dias de lua..
 Continuo continuando.]

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